As pessoas costumam perguntar sobre os livros que estou escrevendo: "sobre o que é?". É uma pergunta justa. Mas a pergunta que eu mais gostaria de ouvir é outra: "como é o caminho até ele existir?". Porque é nesse caminho — entre a primeira linha e a primeira página impressa — que quase tudo acontece.
Todo livro começa como uma pergunta
Nenhum dos meus projetos começou com uma resposta. Começaram com perguntas que não me largavam: por que pensamos do jeito que pensamos? Por que a pressa dominou nossas vidas? O que a ciência pode — e não pode — nos dizer sobre como viver? Um livro, nesse sentido, é uma pergunta grande que a gente aceita carregar por anos.
Essa é a parte romântica. A parte menos romântica é o resto: a disciplina diária, as versões descartadas, o texto que parecia pronto na terça e desmorona na quinta.
Escrever um livro é descobrir, página após página, que a pergunta era maior do que você imaginava — e continuar mesmo assim.
O primeiro rascunho é um ato de coragem
Há um mito de que escritores escrevem bem de primeira. A verdade é que o primeiro rascunho é sempre um desastre — e está tudo bem, porque a função dele não é ser bom: é existir. É a versão que tira a ideia da cabeça e a coloca no papel, onde pode ser examinada, cortada e reescrita.
A coragem de escrever mal é o pré-requisito de escrever bem. Quem espera o texto perfeito para começar, nunca começa.
Reescrever é pensar de novo
Reescrever não é polir: é pensar de novo. Cada reescrita é uma nova rodada de perguntas — esta palavra é precisa? Este argumento resiste à objeção mais forte? Este capítulo é necessário ou é o autor fazendo pose? Cortar é mais difícil do que escrever, porque cada corte é a admissão de que algo que você amava não servia.
É também onde o livro vira livro. O que era uma coleção de ideias interessantes ganha ossatura: um fio que começa, se desenvolve e termina — e que o leitor pode percorrer sem se perder.
Publicar é aceitar o risco
Há um momento em que o livro deixa de ser seu e passa a ser do leitor. Publicar é exatamente isso: aceitar que a obra será lida — e interpretada — sem você por perto para explicar. Dá medo. Sempre dá. Mas é o único jeito de um texto cumprir seu destino, que é encontrar alguém.
Os livros que estou escrevendo ainda estão nesse caminho. Um em fase de escrita, outro em revisão, um terceiro sendo gestado. Quando estiverem prontos, eles aparecem primeiro aqui — e quem assina a newsletter saberá antes de todo mundo.
O que vem por aí
Este espaço nasceu para ser a casa desses textos e desses livros: os ensaios, as opiniões, as críticas e o registro do processo. Se você chegou até aqui, talvez queira acompanhar essa jornada. A página Livros mostra o estado de cada projeto — e a assinatura abaixo avisa quando algo novo sai.
Até lá, fica o convite deste texto: se você também escreve, escreva mal hoje. O rascunho feio de agora é o livro bom do futuro.
Texto publicado originalmente neste espaço em julho de 2026.