A ilusão do PIB
Há um truque de retórica que volta a cada eleição: quem defende um governo abre uma planilha, aponta para uma taxa de crescimento e diz “a economia cresceu”. E pronto — como se a discussão estivesse encerrada. O problema é que a planilha está certa e a conclusão está errada. Não porque os números sejam falsos, mas porque o PIB não mede o que as pessoas acham que ele mede.
É preciso afirmar, sim, que o PIB brasileiro cresceu no mandato atual (Governo Lula, 2023 a 2026) — cerca de 3% em 2023, 3,4% em 2024 e 2,3% em 2025, uma sequência de altas. IBGE — PIB cresce 2,3% em 2025 Mas, e daí?
Para quem não sabe, PIB significa Produto Interno Bruto: é a soma de todos os bens e serviços finais produzidos por um país em determinado período. Seja o pão que a padaria vendeu, o carro que a fábrica montou, a consulta que o médico cobrou, o serviço de uma escola ou de um órgão público. A fórmula é complexa, mas perto de tantas outras ela se torna simples: consumo das famílias + investimento + consumo do governo + exportações − importações.
Em teoria, quanto mais a economia produz, maior é a economia. É o que o número mede — e é aqui que quase todo político ou aquele que quer apenas vencer uma discussão para. O problema começa quando se transforma essa informação em uma conclusão muito maior do que ela comporta.
PIB mede PRODUÇÃO. Ele não mede bem-estar, não mede quem ficou com o dinheiro, não mede se alguém ficou para trás. É uma medida da atividade econômica, não um boletim de vida boa.
A métrica foi sistematizada na década de 1930, em plena Grande Depressão, para quantificar a atividade econômica e subsidiar a formulação de políticas públicas. Simon Kuznets foi uma das figuras centrais no desenvolvimento das contas de renda nacional nos Estados Unidos e, em 1934, apresentou ao Congresso americano seu famoso relatório sobre a renda nacional. Nele, fez uma advertência que deveria estar tatuada na testa de cada ministro da Economia:
"O bem-estar de uma nação dificilmente pode ser inferido a partir da medição da renda nacional."
Três décadas depois, Robert Kennedy destrinchou a questão em 1968:
"O PIB contabiliza a poluição do ar e o cigarro, e as ambulâncias que limpam nossas estradas de carnificina. Contabiliza as fechaduras especiais em nossas portas e as prisões para aqueles que as arrombam. Contabiliza a destruição das sequoias e o caos urbano. Mas não conta a saúde dos nossos filhos, a qualidade da sua educação ou a alegria das suas brincadeiras. Não conta a beleza da nossa poesia, a força dos nossos casamentos, a inteligência do nosso debate público ou a integridade dos nossos servidores. Mede tudo, exceto aquilo que torna a vida digna de ser vivida."
Isso é uma crítica à tentativa de transformar uma métrica econômica em uma medida universal de progresso humano.
Organismos internacionais como a ONU, o FMI, o Banco Mundial e a OCDE participam da produção, padronização, disseminação e utilização de estatísticas econômicas comparáveis entre países. Ao longo das décadas, diferentes indicadores foram desenvolvidos para complementar as contas nacionais, justamente porque nenhuma medida isolada consegue descrever o bem-estar de uma sociedade.
E é aqui que a métrica fica interessante, pois o PIB não distingue virtude de calamidade.
Um acidente de trânsito pode gerar atividade econômica contabilizada no PIB: ambulância, hospital, oficina, serviços funerários. Um derramamento de petróleo pode gerar gastos com limpeza e recuperação ambiental que aparecem como produção. Uma guerra movimenta a produção de armas, equipamentos e serviços e, posteriormente, a reconstrução. Um incêndio pode gerar contratação de bombeiros, médicos, construtoras e fornecedores.
A enchente que destruiu o Rio Grande do Sul em 2024 não entra no PIB simplesmente como “riqueza criada”. A destruição de patrimônio é uma perda. Mas a reconstrução dos danos — obras, reparos, serviços e substituição de bens — pode gerar atividade econômica contabilizada pelo indicador. É uma distinção importante: o PIB registra a produção da reconstrução, mas não transforma automaticamente a destruição patrimonial em um número negativo. O próprio IBGE criou uma pesquisa especial para estudar os impactos das enchentes de 2024 no estado. Em resumo, reconstruções de calamidades aumentam o PIB ao mesmo tempo que diminuem a capacidade financeira das familias.
E existe ainda aquilo que fazemos todos os dias sem receber uma nota fiscal: o trabalho doméstico e de cuidado não remunerado. O IBGE contabiliza essas atividades em suas pesquisas sociais, mas elas não são precificadas nem tratadas como parte do PIB. Se você deixa de cuidar do seu filho e contrata uma pessoa para fazê-lo, surge uma transação econômica. Se você faz exatamente o mesmo trabalho gratuitamente em casa, não há uma transação de mercado a ser registrada no PIB.
Um país pode "crescer" enquanto enfrenta problemas ambientais, sociais ou distributivos. E pode apresentar crescimento econômico modesto enquanto determinados aspectos da vida da população melhoram. O PIB não sabe a diferença porque essa não é a pergunta que ele foi criado para responder. E é nisso que quero fixar sua atenção, pois em tempos de campanha politica, essa costuma-se atribuir ao PIB essa reponsabilidade.
Por isso vale destacar distinção importante: o problema não é o PIB. O problema é o que fazemos com ele.
O PIB é uma métrica extremamente útil. Ele mede a produção de bens e serviços, permite acompanhar ciclos econômicos, comparar o tamanho das economias e identificar períodos de expansão e recessão. O erro começa quando transformamos uma medida de atividade econômica em um diagnóstico completo de prosperidade.
É como um termômetro. Se ele marca 39°C, a informação é importante. O absurdo seria concluir, a partir dela, que já sabemos tudo sobre o paciente: se ele está alimentado, se dormiu bem, se está feliz, se tem dinheiro no banco ou se sua família está funcionando.
O PIB responde a uma pergunta específica: quanto foi produzido? Não responde se essa produção melhorou a vida das pessoas, quem se apropriou dela ou se ela é sustentável.
Portanto, não se trata de jogar o PIB fora. Trata-se de colocá-lo no lugar correto. Crescimento econômico é uma informação relevante sobre um país. Não é, sozinho, um atestado de sucesso de um governo.
O caso concreto: os números que o governo não mostra
Cheguemos aos dados de 2023-2025, publicados pelo próprio IBGE, e vejamos a qualidade do crescimento que transformam em propaganda.
- O agro teve uma contribuição desproporcional para o crescimento de 2025. A agropecuária saltou 11,7%, enquanto a indústria avançou 1,4% e os serviços 1,8%. A safra foi um componente importante do resultado, influenciada por condições climáticas, produtividade e preços das commodities — fatores cuja contribuição não pode ser atribuída integralmente à política econômica do governo.
- A indústria coxeou: +1,4%. O consumo das famílias desacelerou de +5,1% em 2024 para +1,3% em 2025, em um contexto de expansão do crédito e elevado endividamento das famílias. O resultado ocorreu em um ambiente de juros elevados, entre outros fatores.
- O investimento não acompanhou o ritmo do crescimento. A taxa de investimento ficou em 16,8% do PIB, praticamente estável em relação aos 16,9% de 2024. No quarto trimestre de 2025, a formação bruta de capital fixo caiu 3,5% em relação ao trimestre anterior, com ajuste sazonal. Em perspectiva histórica, a taxa de investimento brasileira já esteve acima de 20% do PIB no início da década de 2010, chegando a 20,9% em 2013.
- Enquanto isso, o consumo do governo subiu: +2,1% em 2025, contra +1,3% no consumo das famílias; no quarto trimestre, o consumo do governo avançou 3,6% ante o mesmo trimestre de 2024. Isso não significa, por si só, que “o tamanho do Estado” tenha crescido nessa proporção: consumo do governo é uma categoria específica das contas nacionais. Mas significa que essa despesa de consumo contribuiu positivamente para a atividade econômica medida pelo PIB.
- PIB per capita: +1,9% em 2025. É importante não confundir esse número com renda recebida pelo brasileiro médio: PIB per capita é simplesmente o PIB dividido pela população. Ele mostra quanto do PIB corresponderia a cada habitante se o produto fosse dividido igualmente — o que não acontece. Em 2025, o PIB per capita real cresceu 1,9%, abaixo dos 2,3% do PIB total.
- A economia desacelerou no fim do ano. No quarto trimestre de 2025, o PIB avançou 0,1% em relação ao trimestre anterior, com ajuste sazonal. Não é uma recessão, mas é praticamente uma estagnação trimestral. O resultado anual de 2,3% foi o menor crescimento desde 2020, quando houve a contração provocada pela pandemia.
- Uma sequência de altas não possui automaticamente um autor. Depois da queda de 2020, a economia passou por recuperação e expansão em diferentes anos, influenciada por uma combinação de fatores domésticos e externos. O PIB cresceu durante diferentes governos, mas isso não significa que cada governo possa reivindicar sozinho a autoria do resultado. Tampouco seria correto atribuir automaticamente a um governo todos os resultados negativos ocorridos durante seu mandato.
Junte tudo: crescimento expressivo da agropecuária, serviços crescendo em ritmo moderado, indústria avançando pouco, consumo das famílias desacelerando, investimento praticamente estagnado em proporção do PIB e atividade perdendo velocidade no final do ano. Isso não permite concluir, apenas olhando para o PIB, que o Brasil “decolou”. Também não permite concluir que todo o crescimento foi obra do governo.
E aqui cabe uma ressalva que parece óbvia, mas precisa ser dita: 2,3% de crescimento não é zero. Tampouco é uma recessão. O Brasil efetivamente produziu mais em 2025 do que em 2024. O número é real e economicamente relevante.
O problema é outro.
Um crescimento positivo não informa, sozinho, por que a economia cresceu, quem se beneficiou, se o ritmo é sustentável ou quanto desse resultado pode ser atribuído às decisões do governo.
É perfeitamente possível que um governo apresente crescimento econômico durante seu mandato sem que todo esse crescimento seja resultado de suas políticas. Da mesma forma, seria intelectualmente desonesto atribuir automaticamente ao governo todos os resultados ruins ocorridos durante seu mandato.
Economias não são máquinas operadas por um único motorista. Clima, preços internacionais, juros, crédito, população, produtividade, investimentos privados, cenário externo e decisões de governos anteriores entram simultaneamente na conta.
O número 2,3% é um fato. Transformá-lo em “o governo fez a economia crescer” já é uma interpretação causal.
Uma sequência de anos de crescimento também não resolve a questão. Crescimento acumulado não possui automaticamente um autor.
A pergunta correta não é apenas:
“O PIB cresceu?”
A pergunta é:
“Quanto cresceu, por quê, durante quanto tempo, com quais consequências e em que medida podemos atribuir esse resultado às políticas adotadas?”
Um governo pode apresentar crescimento durante seu mandato. Isso é um fato.
Mas transformar esse fato em prova de competência governamental exige demonstrar a relação causal entre as políticas adotadas e o resultado obtido.
E essa demonstração não aparece em uma manchete de crescimento do PIB.
O veredito
O PIB é uma métrica de quantidade, não de qualidade; de tamanho, não de distribuição; de fluxo, não de patrimônio. Crescer é uma condição importante para uma economia, mas não é condição suficiente para demonstrar prosperidade.
Nos números atuais, o crescimento de 2023-2025 precisa ser interpretado em conjunto com sua composição: forte desempenho da agropecuária em 2025, desaceleração do consumo das famílias, investimento em torno de 17% do PIB e perda de velocidade da atividade no final do ano.
Usar simplesmente “o PIB cresceu” como escudo de um governo é como medir a saúde de uma família pela conta do supermercado: a conta subiu, mas isso não nos diz se todos estão mais saudáveis, mais educados, mais seguros ou menos endividados.
O número existe.
Mas ele não responde à pergunta que a propaganda está fazendo.
O que um governo deveria demonstrar para mostrar resultado positivo então?
Se a pergunta é se um país está realmente melhor, o PIB precisa ser acompanhado por outras métricas:
- Renda real do trabalhador e massa salarial: a renda disponível está crescendo acima da inflação? O crescimento está distribuído ou concentrado?
- Desemprego, informalidade e subutilização da força de trabalho: não basta saber quantas pessoas estão ocupadas; é preciso observar a qualidade e a estabilidade dessas ocupações.
- Desigualdade (Gini): como o crescimento está distribuído entre os diferentes grupos de renda?
- PIB per capita: o crescimento da economia está superando o crescimento populacional?
- Taxa de investimento e produtividade: a economia está ampliando sua capacidade de produzir mais no futuro ou apenas utilizando mais intensamente a capacidade existente?
- IDH e outros indicadores sociais: renda, educação e longevidade também fazem parte da avaliação do desenvolvimento humano.
- Qualidade do gasto público e trajetória da dívida: quanto custa produzir os resultados atuais e qual parcela dessa conta será transferida para o futuro?
Porque, no fim, a pergunta relevante não é simplesmente:
“O PIB cresceu?”
É:
“O que cresceu, por que cresceu, quem ganhou com isso, quem ficou para trás e o que esse crescimento deixou para o futuro?”
O problema não está em dizer que o PIB cresceu.
O problema está em fazer o eleitor acreditar que essa frase respondeu a perguntas que o PIB nunca fez.
Leitura recomendada: The Undercover Economist (Tim Harford), Economia, Sociedade e Política (Roberto Dumas Wood).
