Opinião

O Dilema do Rock no Rock in Rio

O incômodo com a presença massiva de artistas pop no Rock in Rio não é sobre gosto musical ou purismo de gênero, mas sobre a morte do rock como dispositivo de contestação e identidade geracional. O texto explora como a rebeldia do gênero foi absorvida e monetizada pelo mercado, transformando a ruptura em produto, fazendo que o rock perdesse sua essência.

Há um incômodo que percebo em muita gente, mas que é difícil colocar em palavras: ver Ivete Sangalo marcada por convites eternos ao Rock in Rio provoca uma sensação de deslocamento. Antes que você me julgue, não é sobre gosto musical. É sobre o que aconteceu com um espaço que, historicamente, servia para outra coisa.

Rock in Rio

A primeira tentação é explicar esse incômodo de forma ingênua: "Ivete não é rock, ponto." Mas essa leitura é pobre demais para sustentar qualquer argumento, e também não é o que realmente incomoda. O problema não é uma cantora fora de lugar num line-up. É a pergunta que fica atrás disso: por que um festival que nasceu com uma identidade tão definida precisa, ano após ano, recorrer a nomes de apelo popular massivo para se sustentar como espetáculo — enquanto o rock contemporâneo perde, progressivamente, a capacidade de ocupar o centro da cultura?

O rock nunca foi importante só pelo timbre da guitarra distorcida. Durante décadas, ele funcionou como um dispositivo de identidade: contestação, ruptura geracional, questionamento da autoridade, formação de tribo. Cantar rock era comunicar ao mundo uma ideia. Ouvir rock era partilhar daquela visão de mundo. Um adolescente que escutava Sex Pistols, Nirvana, Legião Urbana ou Raimundos não estava apenas ouvindo uma música — estava encontrando um discurso sobre o mundo, ainda que confuso, ainda que raivoso sem direção clara. Havia conflito ali. E era esse conflito, não o acorde, que dava ao gênero seu poder.

É essa função, não o gênero em si, que está desaparecendo. E desaparece com ela algo que dificilmente vou recuperar sem nostalgia: a lembrança de bandas que travaram, nos anos 2000, uma batalha cultural desajeitada mas genuína, cheia de contradições e ainda assim capaz de organizar uma geração inteira em torno de uma ideia. E ao escrever isso, talvez eu tenha percebido algo: o rock talvez não tenha perdido essa batalha. Ele pode tê-la vencido — e essa vitória é exatamente a causa de sua morte.

Pense na sequência: o rock nasce como ruptura ("vocês dizem que devemos ser assim; nós seremos diferentes"). A sociedade reage com censura e escândalo. Aos poucos, a ruptura deixa de ser ameaça — cabelo comprido, tatuagem, sexualidade explícita, linguagem agressiva, individualismo, tudo isso vai sendo absorvido pelo tecido social que antes o rejeitava. E quando o mercado percebe que pode vender aquela estética sem correr risco algum, ele vende. A rebeldia vira parcelamento no cartão.

Esse é um mecanismo bem descrito: não é conspiração, é absorção. Ninguém precisa decidir, numa sala fechada, "vamos acabar com o rock". Basta que o sistema aprenda a lucrar com aquilo que antes o ameaçava. O resultado prático é idêntico a um extermínio deliberado, mas a causa é mais banal — e, por isso mesmo, mais difícil de combater. Não há inimigo para apontar. Há apenas um mercado fazendo o que mercados fazem: maximizar audiência para maximizar lucro.

Ivete Sangalo no Rock in Rio não é a causa desse processo. É o sintoma mais visível dele. A pergunta certa não é "por que colocaram ela?" — é "o que significa chamar um festival de Rock in Rio quando o rock deixou de ser o princípio organizador da sua identidade?". Porque amanhã pode ser sertanejo, depois funk, depois pop. O rock vira apenas mais uma categoria do cardápio, ao lado das outras.

É claro que toda geração tende a achar que sua rebeldia era autêntica e a rebeldia da geração seguinte é decadência. Estou com receio de cair nessa armadilha. Dizer "o rock era a arma intelectual" pode ser menos uma constatação histórica e mais uma descrição da própria juventude de quem fala. Talvez o jovem de hoje encontre seu discurso de contestação em outro lugar, no rap, no trap, em cenas musicais que nascem e se organizam pela internet. E aquele que cresceu com rock simplesmente não reconheça ali a mesma potência, porque a potência de qualquer geração é sempre mais visível de dentro.

E pensando de outra forma, Banda de Rock é de fato algo complexo para os dias de hoje. Não que não haja, mas a própria ideia de um grupo de pessoas que precisa permanecer unido por anos, construindo uma trajetória contínua, perde terreno diante da lógica de conteúdo individual e algorítmico. Taylor Swift, Billie Eilish, Bad Bunny são marcas/pessoa, muito mais fáceis de otimizar num feed do que quatro sujeitos que precisam concordar entre si por quinze anos. A banda é quase uma instituição pré-moderna diante do capitalismo de atenção. E por mais que isso me entristeça, havia glória nesta nostalgia.

Se o rock foi superado, algo culturalmente mais potente tomou seu lugar como linguagem de contestação. Se foi domesticado, sua linguagem foi engolida pelo próprio sistema contra o qual se insurgia sem que nada a tenha substituído em função equivalente.

A hipótese mais interessante é a terceira via: talvez não exista mais um gênero dominante que cumpra aquele papel. A sequência clássica — juventude → gênero musical → tribo → identidade → ideologia — deu lugar a algo mais fragmentado: indivíduo → algoritmo → microcomunidades → identidades dispersas. Se isso for verdade, o rock não foi vencido por um rival. Ele perdeu o monopólio da rebeldia porque a própria estrutura que sustentava esse monopólio, a cultura de massa organizada em torno de gêneros, deixou de existir.

O Rock in Rio, sob esse olhar, não é traição ao rock. É um museu vivo dessa transição: um nome que carrega a memória de uma função cultural que o próprio evento, para sobreviver como negócio, não pode mais cumprir. E há algo quase hegeliano nisso — a proposta do rock triunfa exatamente no momento em que aquilo que ela combatia deixa de precisar ser combatido. O rebelde de 1975 precisava dizer "tenho o direito de ser diferente". O jovem de 2026 pode simplesmente responder "claro, próximo assunto" — e essa indiferença é a derrota mais completa que um movimento de contestação pode sofrer: não ser proibido, mas deixar de ser necessário.

Vagner Bastos

Escreve sobre filosofia, ciência e o tempo em que vivemos. Autor dos livros que estão por vir.

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