Há uma pergunta incômoda que quase nunca fazemos quando julgamos uma pessoa: o que as relações que ela escolhe manter dizem sobre ela?
Imagine um homem comum que, durante anos, mantém ao seu redor ladrões de banco. Não um encontro casual. Não um vizinho. Não um colega de infância. Ladrões que ele escolhe para trabalhar com ele, nos quais deposita confiança, aos quais entrega responsabilidades e que continua procurando mesmo depois de suas atividades criminosas se tornarem conhecidas.
Seria absurdo concluir automaticamente que ele também é ladrão.
Vamos ao extremo, se seu primo começa a andar com um grupo de militantes pró nazismo. Você o conhece, sabe que ele não defende o nazismo, mas você então se pergunta, por que?
Seria absurdo concluir que ele é nazista? Sim. Mas seria igualmente absurdo concluir que a escolha de permanecer naquele grupo não diz absolutamente nada sobre ele.
A diferença está justamente aí.
Associação não é prova de identidade. Mas associação voluntária, reiterada e funcional é evidência.
E quanto maior a liberdade de escolha, maior o valor dessa evidência.
A amizade não é uma prova. A escolha é uma informação.
Existe um fenômeno amplamente estudado nas ciências sociais chamado homofilia: pessoas semelhantes tendem a estabelecer vínculos entre si. A literatura sobre redes sociais mostra que a similaridade participa da formação de relações de amizade, trabalho, aconselhamento, apoio, troca de informações e outras formas de vínculo. Redes humanas, portanto, não são completamente aleatórias.
Isso não significa que amigos tenham necessariamente os mesmos valores.
Nem significa que trabalhar com uma pessoa moralmente questionável transforme alguém em criminoso.
A realidade é mais interessante.
As pessoas podem se aproximar umas das outras por interesse, conveniência, necessidade, oportunidade ou circunstância. E justamente por isso uma associação isolada diz pouco.
Mas relações políticas são diferentes.
Um presidente dispõe de milhares de pessoas entre as quais pode escolher ministros, assessores, aliados, operadores políticos e interlocutores. Ele não escolhe todos. Mas escolhe alguns. Há poder em suas mãos para isso!
E quando uma pessoa é escolhida repetidamente, recebe confiança, acesso, influência ou espaço político, a relação deixa de ser apenas uma coincidência e ela passa a ser um dado sobre os critérios de seleção daquele que escolheu.
Percebe? Essa distinção é fundamental.
Naturalmente que a esta altura você pensou: "Diga-me com quem andas e direi quem és."
Mas isso é somente um provérbio, não uma teoria. A formulação intelectualmente mais séria é outra:
Diga-me quem você escolhe manter próximo quando poderia escolher outra pessoa, e teremos uma evidência sobre aquilo que você considera tolerável, útil, confiável ou compatível com seus próprios interesses e valores.
Não é prova de culpa. É evidência sobre tolerância. E tolerância também é uma característica moral.
O agravante começa quando a exceção vira padrão
Uma associação pode ser circunstancial. Duas podem ser coincidência. Dez começam a exigir uma explicação. É aí que entra uma segunda variável: repetição.
Se uma pessoa afirma rejeitar determinado comportamento, mas repetidamente incorpora ao seu círculo indivíduos associados a esse comportamento, qualquer pessoa perceberá duas possibilidades:
A primeira é que todas essas relações sejam acidentes independentes. A segunda é que exista algum mecanismo de seleção.
Talvez afinidade. Talvez interesse. Talvez conveniência. Talvez tolerância. Talvez simplesmente uma concepção de poder na qual determinadas condutas sejam consideradas um preço aceitável pela manutenção de uma coalizão.
Não cabe ao observador escolher antecipadamente qual dessas explicações é verdadeira.
Cabe fazer a pergunta.
Por que essas pessoas?
E, principalmente:
por que continuam sendo essas pessoas depois que sua história se torna conhecida?
E então chegamos a Lula
É aqui que o argumento precisa abandonar a caricatura e olhar para os fatos. Não é necessário afirmar que Lula seja pessoalmente responsável por todos os crimes cometidos por pessoas que passaram por seus governos.
Isso é intelectualmente indefensável.
Também não é correto apresentar Lula hoje como alguém juridicamente condenado pelos processos da Lava Jato. O STF anulou as condenações por entender que a 13ª Vara Federal de Curitiba era incompetente para julgar aqueles processos; posteriormente, o Tribunal também manteve o reconhecimento da suspeição de Sergio Moro no caso do tríplex.
Esses fatos precisam permanecer exatamente assim e cessar esse debate.
Mas existe outra pergunta que permanece perfeitamente legítima:
que tipo de pessoas um projeto político escolhe colocar perto do poder?
E essa pergunta pode ser examinada sem transformar associação em condenação.
O Mensalão: a primeira grande pergunta
Durante o primeiro governo Lula, o Mensalão produziu condenações de figuras centrais da estrutura política do PT e do governo, entre elas José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares. O próprio núcleo político petista estava entre os condenados.
A pergunta intelectualmente honesta não é:
"Lula era o Mensalão?"
Não temos base para afirmar isso simplesmente a partir dessas condenações.
A pergunta é outra:
o que significa para um projeto político ter seu núcleo de sustentação atingido por um escândalo dessa magnitude?
E mais:
o que esse projeto faz com essas pessoas depois?
Porque existe uma diferença moral importante entre:
"Essa pessoa cometeu um crime e foi afastada."
e:
"Essa pessoa foi condenada e, anos depois, voltou a ser tratada como parte legítima do patrimônio político do grupo."
O segundo comportamento é uma escolha. Moral.
Vinte anos depois, José Dirceu e Delúbio Soares se preparam para voltar à vida pública por candidaturas em 2026. A reabilitação não é acidental — é decisão política. O que ela revela sobre o que o projeto considera aceitável? Por que estes que foram sim condenados? Não existem outros mais capazes ou menos corruptos?
Lava Jato: novamente, o problema não é apenas o crime
A Lava Jato acrescenta outra camada. João Vaccari, Delúbio Soares, José Dirceu novamente, Antonio Palocci, Guido Mantega, Geddel Vieira Lima, entre outros nomes ligados aos governos e ao PT.
Mais uma vez, seria intelectualmente preguiçoso concluir: "Foram condenados, portanto Lula é culpado."
Não. Mas a pergunta interessante é:
por que tantas relações entre o núcleo político do partido e pessoas posteriormente atingidas por investigações e condenações surgiram justamente dentro da estrutura de poder naquele momento e daquele projeto?
Isso não resolve a questão. Mas cria uma questão que precisa ser respondida.
E há uma diferença importante entre responsabilidade criminal e responsabilidade política.
Um presidente pode não ter cometido determinado crime e, ainda assim, ser politicamente responsável por: quem nomeia, quem mantém, quem protege politicamente, quem reincorpora, quem utiliza como aliado, e quais comportamentos aceita como custo da governabilidade.
São responsabilidades diferentes. Confundi-las é um erro. Ignorá-las também. Isso serve para nós, meros expectadores que levantam bandeiras. Ignorar essas perguntas é um erro!
O caso Geddel mostra por que a natureza da relação importa
Geddel Vieira Lima foi condenado mas não há prova que seus crimes tenham relação com Lula. Ainda assim o que interessa é a natureza da relação política.
Geddel, condenado no caso do bunker de R$ 51 milhões, participou do campo político aliado a Lula na Bahia e esteve em palanques de campanha e de governo. A aliança PT-MDB na Bahia foi articulada por Geddel; ele discursou defendendo Lula ("vão ter que me engolir") e, em troca, o PT lhe permitiu indicar secretário de estado e o vice da chapa local.
Isso é diferente de encontrar casualmente uma pessoa.
Aqui temos: aliança → escolha → palanque → articulação → distribuição de poder.
É exatamente esse tipo de relação que interessa à minha tese. Justamente porque permite fazer uma pergunta mais precisa:
Qual é o limite moral de uma aliança política?
Se alguém é considerado inadequado para o poder por causa de sua trajetória criminal, mas torna-se aceitável novamente quando sua participação é politicamente conveniente, o fato relevante não é apenas o passado daquela pessoa.
É o critério de quem decidiu reintroduzi-la no jogo. E isso fala muito sobre este que a escolhe. Percebe?
O caso Master: quando a proximidade precisa ser investigada, não presumida
O caso Master é ainda mais delicado. Reuniões e relações envolvendo Daniel Vorcaro, Guido Mantega, Gabriel Galípolo e integrantes do governo, além das investigações que posteriormente atingiram diferentes personagens.
Uma reunião não prova corrupção.
Uma amizade não prova corrupção.
Um emprego não prova corrupção.
Uma indicação não prova corrupção.
Uma relação política não prova corrupção.
Mas também seria ingênuo afirmar que nenhuma dessas coisas tem relevância.
Pare pra pensar, e se pergunte:
quem tinha acesso a quem, por quê, com que frequência, por iniciativa de quem, em que circunstâncias e com quais consequências?
E o que cada um sabia naquele momento?
Esse é o tipo de pergunta que transforma uma acusação em investigação.
E existe uma consequência filosófica importante:
quanto maior o poder de escolher com quem se relacionar, maior a responsabilidade política pelas escolhas feitas.
Um cidadão comum possui um círculo de relações limitado. Um presidente da República não.
O problema não é apenas quem comete o crime
Quando discutimos corrupção, normalmente procuramos o criminoso. Quem recebeu? Quem desviou? Quem lavou? Quem pagou? Quem intermediou?
Mas quem tornou aquela pessoa útil?
Crimes políticos raramente acontecem no vácuo. A história existe para comprovar isso. Eles precisam de redes, de acesso, de confiança, de intermediários, de silêncio e de portas que se abram.
E precisam, muitas vezes, de alguém disposto a continuar tratando determinadas pessoas como parceiros aceitáveis. Por isso, a responsabilidade política não termina necessariamente na pessoa que recebeu o dinheiro.
Existe também a responsabilidade daqueles que constroem o ambiente no qual determinadas relações se tornam possíveis.
Isso não significa criminalizar a convivência.
Significa reconhecer que relações de poder possuem consequências morais diferentes das relações privadas comuns.
O teste precisa funcionar para todos
Se um político de esquerda se relaciona com alguém acusado de corrupção, a relação deve ser examinada. Se um político de direita faz exatamente a mesma coisa, a relação também deve ser examinada.
Se o caso Master envolve pessoas de diferentes espectros políticos, isso não elimina a responsabilidade individual de ninguém — mas também impede que o escândalo seja transformado artificialmente em propriedade exclusiva de um partido.
O princípio é justamente esse:
A mesma régua precisa ser aplicada a todos.
Caso contrário, não temos um princípio moral, somente uma arma retórica.
Mas, afinal, o que quero dizer?
Não é possível provar a culpa de uma pessoa apenas olhando para seus amigos. Mas é perfeitamente razoável avaliar suas escolhas de confiança.
Não é possível concluir que alguém é corrupto simplesmente porque conhece corruptos. Mas é razoável perguntar por que alguém continua escolhendo como aliados pessoas envolvidas em corrupção.
Não é possível transformar uma reunião em prova criminal. Mas é razoável investigar por que aquela reunião ocorreu, quem a solicitou, qual era seu objetivo e o que aconteceu depois.
E não é possível transformar toda associação em cumplicidade. Mas também não é razoável fingir que todas as associações são moralmente neutras.
A diferença está entre proximidade acidental e escolha deliberada.
Entre convivência e confiança.
Entre contato e incorporação.
Entre uma exceção e um padrão.
É nesse espaço que a política precisa ser julgada.
Então, que fica para 2026?
Talvez a pergunta mais honesta ao eleitor não seja:
"Lula é corrupto?"
Essa pergunta exige uma conclusão criminal que não cabe ao eleitor produzir por associação. E seus defensores sempre estarão corretos em afirmar sua negativa.
A pergunta mais interessante é:
"Que tipo de comportamento eu estou disposto a aceitar em troca do projeto político que Lula representa?"
Porque votar não é apenas escolher aquilo que um candidato promete fazer.
É também escolher a estrutura política que receberá poder em seu nome.
E estruturas são feitas de pessoas.
Pessoas são escolhidas e revelam prioridades, que revelam tolerâncias, que repetidas durante décadas, deixam de parecer acidentes isolados.
Talvez seja esse o risco!
o que o padrão de pessoas que um projeto político escolhe, preserva, reabilita e mantém próximas revela sobre aquilo que esse projeto considera aceitável para permanecer no poder?
Minha intenção com esta pergunta é te obrigar a olhar para as relações. E aqui deixo de ser enigmático: depois de olhar para essas relações, para as escolhas que as produziram e para os padrões que elas formam, eu vejo risco no círculo de poder que Lula escolhe manter ao seu redor.
